Setembro tem uma forma muito própria de nos lembrar que os recomeços existem.
Depois do verão, regressamos às rotinas, aos horários, aos projetos e às responsabilidades. Mas regressamos também com uma vontade renovada de fazer planos. É o mês em que muitos começam uma formação, mudam de emprego, retomam um projeto ou, simplesmente, decidem que está na altura de fazer diferente.
Talvez seja por isso que setembro seja um mês particularmente adequado para falar de aprendizagem ao longo da vida.
Porque nem todos os recomeços acontecem no início de um percurso. Alguns surgem quando já levamos muitos anos de experiência, quando julgávamos conhecer bem o nosso caminho ou quando percebemos que aquilo que escolhemos no passado já não corresponde ao que procuramos no presente.
E é precisamente aí que surge uma ideia que vale a pena repetir: nunca é tarde para aprender.
Durante muito tempo, associámos a aprendizagem sobretudo às primeiras décadas da vida. Primeiro estudava‑se, depois entrava‑se no mercado de trabalho e, a partir daí, acumulava‑se experiência. Hoje, esta separação deixou de fazer tanto sentido. Aprender e trabalhar são processos que podem — e, muitas vezes, precisam de — acontecer em simultâneo.
As razões são diversas. Há profissões que se transformam, setores que mudam, novas oportunidades que surgem e outras que deixam de existir. Mas existem também razões muito mais pessoais: alguém pode descobrir uma nova vocação aos 40 anos, querer mudar de área aos 50 ou simplesmente sentir, depois de muitos anos na mesma função, que está preparado para experimentar algo diferente.
Mudar de carreira pode parecer, à primeira vista, começar tudo de novo. Mas raramente é assim.
Quem decide requalificar‑se leva consigo tudo aquilo que aprendeu ao longo do caminho. A experiência profissional, a capacidade de trabalhar em equipa, comunicar, resolver problemas, assumir responsabilidades ou adaptar‑se a diferentes contextos são competências que não ficam para trás quando mudamos de profissão. Pelo contrário, podem tornar‑se uma vantagem num novo percurso.
Requalificar não é apagar o passado. É dar‑lhe uma nova direção.
É isso que encontramos em tantas histórias de mudança profissional: pessoas que passaram anos numa determinada área e decidiram aprender outra; profissionais que regressaram à formação depois de uma longa pausa; pessoas que descobriram uma nova profissão através de uma experiência, de uma conversa ou de uma competência que começaram a desenvolver por curiosidade.
Nem sempre o ponto de partida é uma grande decisão.
Às vezes, é uma pequena pergunta: “E se eu experimentasse?”
Pode ser uma formação ao final do dia, um curso online, a aprendizagem de uma nova ferramenta, a participação num projeto diferente ou a oportunidade de acompanhar alguém com mais experiência numa determinada área. Pode até ser algo tão simples como começar a ler, pesquisar ou conversar sobre um tema que desperta interesse.
Grande parte daquilo que sabemos fazer não foi necessariamente aprendido numa sala de aula. Aprendemos a trabalhar com os outros, a gerir situações difíceis, a organizar o nosso tempo, a tomar decisões e a encontrar soluções através da própria experiência.
A aprendizagem informal tem, por isso, um papel fundamental nos nossos percursos. Está presente no trabalho, nas relações que construímos, nos desafios que enfrentamos e na curiosidade com que procuramos compreender algo novo. Muitas vezes, só reconhecemos o valor dessas aprendizagens quando precisamos de as transportar para um contexto diferente.
Mas aprender ao longo da vida não significa estar permanentemente a preparar‑se para uma nova profissão. Significa manter aberta a possibilidade de evoluir.
Pode significar atualizar conhecimentos para continuar na profissão que temos. Pode significar adquirir uma competência que nos permita assumir novas responsabilidades. Pode significar mudar de área. Ou pode, simplesmente, significar descobrir uma dimensão de nós próprios que ainda não tínhamos explorado.
O mercado de trabalho pode mudar, mas também mudamos nós.
Mudam as nossas prioridades, os nossos interesses, as circunstâncias familiares, aquilo que valorizamos e aquilo que esperamos do trabalho. Uma profissão que fazia sentido aos 25 anos pode deixar de fazer aos 45. E reconhecer isso não é necessariamente sinal de fracasso. Pode ser, antes, sinal de crescimento.
É por isso que precisamos de deixar de olhar para os percursos profissionais como histórias com princípio, meio e fim perfeitamente definidos. Uma carreira pode ter desvios, pausas, mudanças de direção e novos capítulos. Pode ser construída através de diferentes profissões, experiências e aprendizagens.
Setembro convida‑nos precisamente a olhar para esses capítulos que ainda podemos escrever.
No dia 8 de setembro, assinala‑se o Dia Internacional da Literacia, uma data que nos recorda o papel fundamental da aprendizagem e do acesso ao conhecimento. É também uma oportunidade para lembrar que aprender não termina quando terminamos a escola, a universidade ou uma formação profissional. Continuamos a aprender porque continuamos a viver, a trabalhar e a enfrentar novas realidades.
Talvez o verdadeiro desafio seja não deixarmos que a ideia de “já vou tarde” nos impeça de começar.
Nunca é tarde para aprender uma nova competência. Nunca é tarde para mudar de função. Nunca é tarde para descobrir uma profissão diferente. Nunca é tarde para regressar à formação ou para transformar uma experiência antiga numa nova oportunidade.
Não precisamos de saber exatamente onde iremos chegar para dar o primeiro passo.
Por vezes, basta reconhecer que queremos ir para outro lugar.
Porque recomeçar não significa começar do zero. Significa começar de onde estamos, levando connosco tudo aquilo que já aprendemos.
E setembro, com a promessa de novos começos, talvez seja o momento certo para nos lembrarmos disso.